Magia Rubro Negra


Charanga do Jaime by fholanda
27/09/2007, 19:57
Filed under: Fla Memória

Alô Amigos Rubro Negros,

Ontem ao ver a apresentação do Penta Campeão Kleberson na Gávea, vi também a saudosa Charanga e resolvi fazer uma pesquisa na Internet para matar essa saudade. Encontrei uma matéria bem interessante e respeitando os créditos segue abaixo na íntegra para leitura, vale a pena!

 Magia Neles!

Fernando Holanda

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A Charanga do Jaime
 
Bernardo Mello Franco
 
Charanga, no dicionário, é sinônimo de “conjunto musical desafinado e barulhento”. Foi assim que o rubro-negro Ary Barroso batizou, em 1942, uma bandinha que acompanhava os jogos do Flamengo. Em vez de ofender-se, o fundador Jaime de Carvalho resolveu adotar o nome. No ano em que o clube começava a conquistar seu primeiro tricampeonato estadual (1942-44), nascia a pioneira das torcidas organizadas do Brasil. Mais de 60 anos depois, o grupo sobrevive graças ao empenho de seus integrantes em manter viva a tradição de apoio ao time.

Desde que chegou ao Rio de ita, em 1927, o baiano Jaime dedicou sua vida ao Flamengo. Na semana do Fla-Flu que decidiu o título de 42, reuniu família e amigos para uma inusitada “invasão” do Estádio das Laranjeiras. Naquele tempo, a torcida gritava quando o time atacava e emudecia quando os adversários recuperavam a bola. Tocando as músicas de incentivo sem parar, a Charanga mudou para sempre o ambiente dos jogos de futebol no país.

Era a própria mulher de Jaime, dona Laura, quem costurava as faixas e bandeiras da torcida. Partindo de vinte integrantes, o grupo cresceu e fez história, inspirando a criação de inúmeras “charangas” pelo país nas décadas de quarenta e cinqüenta. Nelas, era proibido gritar ofensas e palavrões contra os jogadores – só valia torcer a favor.

Depois da morte do marido, em 1976, dona Laura assumiu a liderança da Charanga. Na mesma época, começaram a crescer as torcidas organizadas “modernas”, como a Raça Rubro-Negra e a Torcida Jovem, que adotaram a rivalidade violenta e passaram a influenciar na política no clube. Os estádios, antes seguros, passaram a abrigar cenas de guerra entre facções rivais, muitas vezes do mesmo time. Como reflexo dos novos tempos, a Charanga foi obrigada a se transferir da arquibancada para as cadeiras do anel inferior do Maracanã, freqüentado por idosos, crianças e turistas.

Hoje, com dona Laura doente e sem forças para comandar a torcida, a Charanga se reduz a uma banda de oito músicos aposentados, tão desafinados quanto os do tempo de Jaime de Carvalho. Liderados por Grimário Batista do Nascimento, o Seu Guigui, eles tocam nos jogos de futebol e nas finais dos esportes amadores.

– Quando o Flamengo não chama, cada um faz seu bico em bandas de música, como a da Guarda Municipal – conta o músico de 57 anos, aparentando mais, em fala lenta e pausada.

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No Flamengo de 2003, a Charanga ocupa um papel semelhante ao das velhas-guardas das escolas de samba. É reconhecida como patrimônio do clube, mas sofre com a mudança dos hábitos e com o descaso dos dirigentes. Na última reforma do Maracanã, perdeu a salinha em que guardava seu arquivo de fotos e recortes de campeonatos do passado. Para continuar tocando, seus músicos recebem um pequeno cachê do clube.

– Quem nos ajuda no Flamengo são os funcionários mais antigos, que conhecem a história da torcida. Os presidentes só ligam em época de eleição – diz Seu Guigui.

A decadência da Charanga é um retrato do declínio dos times cariocas e do chamado futebol-arte, que fez a fama dos jogadores brasileiros. A persistência da torcida remete ao tempo em que, como debochou o treinador pentacampeão Luiz Felipe Scolari, se amarrava cachorro com lingüiça.

No fim de 2002, indignados com mais uma campanha medíocre, torcedores invadiram o campo de treinamento na Gávea e agrediram os jogadores diante da imprensa, que fez as imagens correrem o mundo. O Flamengo, como sua torcida, já viveu tempos melhores.

Touradas em Madri

Além de apoiar o Flamengo, a Charanga marcou época acompanhando os jogos da seleção brasileira. Em “O vermelho e o negro – pequena grande história do Flamengo”, o escritor Ruy Castro conta um curioso episódio ocorrido na Copa de 1950, disputada no País.

O Brasil jogava contra a Espanha pelo quadrangular final do torneio. A torcida, empolgada com a campanha do time comandado por Zizinho e Ademir Menezes, lotava o Maracanã. No final da vitória por 6 a 1, a Charanga começou a tocar a debochada marchinha “Touradas de Madri”, sucesso do carnaval de 1938:

Eu fui às touradas em Madri
(Bum paratchimbum)
E quase não volto mais aqui
Para ver Peri beijar Ceci

Eu conheci uma espanhola
Natural da Catalunha
Queria que eu tocasse castanhola
E pegasse touro à unha (…)

Em poucos instantes, a multidão de quase 200 mil pessoas cantava a música e acenava com lenços brancos. Anônimo na arquibancada, o compositor João de Barro, autor da marchinha, pôs-se a chorar copiosamente. Tomado por espanhol, chegou a levar alguns cascudos, mas foi salvo do linchamento por um torcedor que o reconheceu.

O Brasil perderia a Copa três dias depois, na fatídica derrota de 2 a 1 para o Uruguai. Naquela tarde, no entanto, a torcida comemorou como se já tivesse ganho a taça.

* Publicado originalmente em 2004, no extinto site Reator
Fonte: http://www.palmalouca.com.br/almanaque/almanaque.jsp?id_almanaque=87

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