Magia Rubro Negra


Fique com Deus, mestre. by Bruno Cazonatti
29/03/2010, 14:10
Filed under: Colunas

O jornalismo esportivo está de luto. O genial Armando Nogueira, que a tantos inspirou e inspira, faleceu na manhã desta segunda-feira no Rio de Janeiro. O craque das letras não resistiu a um câncer e nos deixou aos 83 anos. Apesar de ser um torcedor do Buátafogo, o mestre fez escola e encantava a todas as torcidas do Brasil com sua forma elegante de narrar o esporte bretão. Junto às informações cotidianas, Armando usava a poesia e abusava do lirismo para nos contar, com paixão, as histórias e estórias do futebol. Agora ele integra uma seleção celestial, que já conta com João Saldanha, Mário Filho, Nelson Rodrigues e etc…

Foram tantas crônicas que eu não posso mensurar o quanto aprendi através de suas letras. Antes mesmo de me tornar um jornalista, já admirava suas linhas da bola entre um folhear de jornal e uma zapeada nas mesas redondas da televisão. Ainda me lembro da fascinação ao ler ‘ A ginga e o jogo ’, onde Armando parecia conversar comigo a cada página devorada. Fantástico. Tenho certeza que aprendi a redigir com mais emoção graças ao grande Nogueira.

Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente por duas vezes e, numa ocasião quando eu ainda estava começando o meu aprendizado na faculdade de Comunicação Social, fui admirá-lo em uma de suas palestras. O “acredite sempre nos seus instintos” foi um conselho que jamais me esquecerei. Fique com Deus, mestre. Obrigado por tudo o que você fez para o jornalismo, principalmente pelos que amam o futebol. Adeus, professor.

EQUIPE Magia Rubro Negra
cazonatti@magiarubronegra.com.br

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Crônica : “A última noite” despedida do Zico escrita por Armando Nogueira :

Maracanã, enfeita de bandeiras tuas arquibancadas que hoje é dia de festa no futebol. Encomenda um céu repleto de estrelas. Convida a lua (de preferência, a lua cheia). Veste roupa de domingo nos teus gandulas. Põe pilha nova no radinho do geraldino. E, por favor, não esquece de regar a grama (de preferência, com água-de-cheiro).

Avisa à multidão que ninguém pode faltar. É despedida do Zico e estou sabendo, de fonte limpa, que, hoje à noite, ele vai repartir conosco a bela coleção de gols que fez nos seus vinte anos de Maracanã. Eu até já escolhi o meu: quero aquela obra-prima, o segundo gol do Brasil contra o Paraguai nas Eliminatórias do Mundial de 1986. Lembro-me como se fosse hoje. Zico recebe de Leandro um passe de meia distância já na linha média dos paraguaios. Um efeito imprevisto retarda a bola uma fração de segundo. Zico vai passar batido – pensei. Pois sim. Sem a mais leve hesitação, sem sequer baixar os olhos, ele cata a bola lá atrás com o peito do pé, dá dois passos e, na mesma cadência, acerta o canto esquerdo do goleiro paraguaio.

Passei uma semana vendo e revendo no teipe aquele instante mágico de um corpo em harmonioso movimento com o tempo e com o espaço. E a bola, coladinha no pé, parecia amarrada no cadarço da chuteira.

Um gol de enciclopédia.

Se o amável leitor aceita uma sugestão, dou-lhe esta: escolha um dos gols que Zico fez graças à sua arte singular de chutar bola parada.

Chutar a bola de falta à entrada da área é um talento que Deus lhe deu mas não de mão beijada, como imaginam os desavisados. Zico trabalhou seriamente, anos e anos, para alcançar a perfeição dos efeitos sublimes. À tardinha, quando terminava o treino, ele costumava ficar sozinho no campo do Flamengo – ele, uma barreira artificial, uma bola e uma camisa caprichosamente pendurada no canto superior das traves. A camisa era o alvo.

Zico passava horas sem fim, chutando rente à barreira e derrubando a camisa lá de cima das traves.

Chegava o domingo, na cobrança da falta, a bola já estava cansada de saber onde ela tinha que entrar.

Não tenho dúvida em dizer que tardará muito até que apareça alguém que domine como Zico o dom de cobrar falta ali da meia-lua.

Celebremos, querido torcedor, a última noite do maior artilheiro da história do Maracanã. Será uma despedida de apertar o coração. Se te der vontade de chorar, chora. Chora sem procurar esconder a pureza da tua emoção. Basta uma lágrima de amor para imortalizar o futebol de um supercraque.

Cantemos, Maracanã, teu filho ilustre, relembrando em comunhão os dribles mais vistosos, os passes mais ditosos, os gols mais luminosos desse fidalgo dos estádios que tem uma vida cheia de multidões.

Louvemos o poeta Zico que jogava futebol como se a bola fosse uma rosa entreaberta a seus pés.

Comentário por Alessandra




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