Magia Rubro Negra


VUVUZELADAS AO LÉU – BENDITO SEJA DEUS – POR CONRAD ROSE by nivinhafla
18/06/2010, 22:34
Filed under: Colunas, Magia Divulga

Nada mais eterno, diversificado e estimulante que a fé. Se fisicamente não move montanha ou remove moinho, há fé nas mais significativas passagens da história da humanidade e a mobilização coletiva em torno dela alavanca verdadeiras proezas, bíblicas até. E vem da fé o personagem mais popular de todos, a figura mais pública dentre nós.

Incontestável, nisso tudo, é a tendência da grande maioria dos homens em nutri-la, no mais ínfimo de cada qual, absorvendo provações – como a convocação do Dunga – e testando-a constantemente – como na escalação do Dunga. Pela fé nos agrupamos e a ela dedicamos algo de nossas horas, dias de nossos anos, anos de nossas vidas. Na fé, não pecamos pela gula: quanto mais, melhor; e mesmo na pior miséria a fé nunca falta, embora sempre seja considerada insuficiente aos fracassados. Estes remediam-se facilmente na promessa de elevar a fé ao cubo quando surgir a próxima tentativa de êxito. A fé, cético interlocutor, é uma progressão geométrica dentro de cada um de nós. Quem a tem, perpetuará consigo, estenderá aos seus e ampliará com veemência a fé até o final da vida. Embora muitos tenham o sentimento abalado ou enfraquecido por circunstâncias tantas, são mínimos entre nós os desertores definitivos da fé, o que de certa forma sustenta a civilização, consequentemente. Sem a fé, a Terra seria um lugar improvável.

Aprofundar-se nisso é coisa para teólogos e eu não tenho essa vocação, porém, na exposição da esposa do 10 canarinho – que me foge o nome – sobre a crise mundial e a contratação de Kaká pelo ‘abençoado’ Real Madrid, fui remetido ao tema e cada vez que relembro o discurso recebo uma golfada de constrangimento. Que ladainha. Se a transação financeira foi obra de Deus através da fé do casal, a pubalgia de Kaká quem assina?

Acontece que a inflamada oratória ficou-me martelando até suscitar a questão de quem, afinal de contas, precisa de muita fé para seguir na Copa. E elegi três exemplos que só na devoção mesmo, numa espécie de Ultimate Faith World Cup.

O campeão de todos é o técnico francês, Raymond Domenech, que já aparece putrefato no cargo, ainda mais ao preterir Henry, Cisse e o apoio popular que lhe restava no jogo contra o México. Sobra na turma pois sustenta nas mãos a batata quente do gol ilegal que eliminou a Irlanda. O incrédulo Domenech por certo sente a ausência de Zidane e não vê a hora de ir para casa.

Logo a seguir, o incansável Carlos Alberto Parreira. A situação é crítica. Precisará combinar fé e sorte, inatas em Joel Santana, e dependerá dos hermanos que têm tudo para serem condescendentes entre si. Sua despedida definirá o futuro da sua imagem no país e o tempo que perdurará o eco das vuvuzelas na sua memória. Uma vitória sobre a França, mesmo que vã, justifica a sua volta ao continente e avaliza o legado deixado pela dupla num time que mal sabia trocar três passes e hoje tabela de primeira. Do contrário, acredito que o futebol sul africano será delegado a um tecnocrata europeu, talvez o próprio Domenech.

Os dois exemplos são antagônicos. Sua equivalência em campo – e quiçá, na fé – aniquila franceses e sul africanos por si só. Boto minhas fichas nos anfitriões, meramente pela disposição.

Completa minha lista o cônjuge da pregadora supracitada, que, combalido com problemas físicos, precisará fortalecer sua costumeira fé com superação e garra. Sem essas, poderá desfalecer e criar desconfiança acerca do seu potencial, ampliando os obscuros sintomas já diagnosticados ao âmbito psicológico, com o providencial incentivo da especulação dos críticos. Caberia a Kaká um lampejo de humildade para solicitar resguardo contra a Costa do Marfim a fim de cuidar da sua irrestrita recuperação, bem como preservar a sua imagem. Poderia, inclusive, ir além e sugerir ao teimoso comandante da elegância a manutenção do trio Robinho, Nilmar e Luís Fabiano. Ou descer o freio de mão, entregar-se de corpo e alma, apavorar a turma de Drogba e provar a todos a sua competência.

Óbvio que, de imediato, o Brasil corre pouquíssimo risco, se comparado à França e à África do Sul. Entretanto, a agonia de Kaká irá até o jogo final, seja ele qual for, mesmo que o derradeiro da competição, pois o 10 sabe que só há um resultado satisfatório, que só a taça vale. O percurso, obrigatório e indigesto, apresenta inúmeras objeções e errar deixa de ser humano. Não obstante, o armador ainda precisa lutar contra as dores, manter a fé no Dunga e se comunicar com a esposa; por tudo isso, leva o terceiro lugar no quesito.

Divaguei pouco mais no assunto e o avesso me levou até Charles Bukovski, Buk, que habituava, além das carreiras nos prados, os ringues de boxe dos guetos estadunidenses. O ébrio escritor observava nos lutadores um único e singelo gesto para definir quais mereciam sua confiança e seus dólares. Eliminava aqueles que ao soar do primeiro gongo gesticulavam com as surradas luvas o sinal da cruz. O combate jamais poderia ser coisa divina; e, para Buk, vencedor seria o que formasse com a mais horrenda besta. Este sim seria capaz de golpear freneticamente o próximo até desacordá-lo, por dinheiro e glória.

De volta ao futebol, mesmo não tendo pacto com demônio algum, nem apostado um vintém, e vestido com as roupas e as armas de Jorge, eu prefiro meu time assim, com o diabo no corpo, comendo a bola, desdobrando-se atrás do gol sempre, sem compaixão, até o desmoronar do adversário que, esgotado pelo ímpeto ofensivo dos meus, implora na imensidão da sua fé o crepúsculo da peleja. Você não?

Conrad Rose
escritor ficcionista
Colaborador do Magia Rubro Negra
MSN: conradrose@hotmail.com

Magia Neles!
EQUIPE Magia Rubro Negra

Twitter: @magiarubronegra
E-mail: paixao@magiarubronegra.com.br

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